Depósitos de eletrônicos: Cemitérios ou Centrais de Órgãos?
Hoje visitei um depósito de eletrônicos nos arredores da Santa Padroeira dos Eletrônicos, a Ifigênia junto com a Maira Begali, o Marcelo Braz (que há mais de ano desenvolve uma pesquisa-ação com sucateiros da região) o Pauo Fehlaer e o Filipe Pacheco (da Resvista22 - veja relato aqui). As condições de armazenagem e segurança no trabalho são péssimas. Os riscos de contaminação ambiental e humana, principalmente, são grandes. Ele compra eletrônicos, funcionando ou não. Em uma indústria de reciclagem, com as devidas licenças ambientais e procedimentos para assegurar a saúde e integridade do trabalhador, paga-se para reciclar os eletro-eletrônicos
Então isso quer dizer que reciclar eletrônicos de acordo com a lei e seguindo um programa de gestão ambiental, com as devidas licenças em dia, custa mais caro? Sim e Não.
Atualmente, como o ciclo de vida dos produtos eletro-eletrônicos está desenhado, sim. A manufatura reversa é cara por que é muito complicado desmontar um equipamento em componentes e matérias-primas. As licenças ambientais são dispendiosas. Mas justificar essa disparidade assim é ignorar a riqueza potencial dos residuos eletrônicos. As recicladoras reutilizam muito pouco os equipamentos recebidos, e não deixa de ser um desperdício de dinheiro, energia, conhecimento e matéria-prima. O processo de reciclagem sairia mais barato, ou até lucraria se fossem reutilizados ao máximo os componentes que ainda funcionam.
O sucateiro da santa não ganha a vida só na informalidade, com profundo conhecimento de quem, por muitos anos, foi técnico de informática, ele reaproveita todas as peças, componentes e carcaças. Há muito o que se aprender com os sucateiros da Santa. Eles reaproveitam e reutilizam tudo o que sua criatividade e conhecimento permitem. Cabos são revendidos, componentes sáo reutilizados na confecção de novos equipamentos. Impressoras, até incríveis equipamentos de hospitais, torradeiras, ventiladores, CDs, Projetores, notebooks. São quilômetros de fios, memórias, chips, motores elétricos, rádios emissoras entre tantos outros que agregam valor ao trabalho. O sucateiro-empreendedor tem dois ajudantes, um deles é sobrevivente da cracolândia. E hoje se interessa por computadores e tecnologia.
Se alguém visse essa montanha de equipamentos eletrônicos provavelmente diria que é lixo. O que você enxerga nesse empilhado de aparelhos? DInheiro.
Sejamos francos: normas meramente proibitivas só aumentarão o já gigante mercado informal de novos e usados eletrônicos do país. Responsabilizar os produtores e mandar tudo para empresas recicladoras encarecerá o já alto preço desses produtos no Brasil. É preciso agregar forças das indústrias, dos comerciantes, da sociedade civil e do poder público. O senso de reutilização e criatividade dos sucateiros é muito alto, um nicho inexplorado para se trabalhar com responsabilidade socio-ambiental, capacitação profissional e, como não poderia deixar de existir, agregar valor ao atualmente dispendioso ciclo reverso dos eletrônicos.
A indústria não pode ignorar a responsabilidade que tem pelos produtos com componentes tóxicos produzidos, e não é preciso esperar a Política Nacional dos Resíduos Sólidos ser sancionada, a Lei de Crimes Ambientais já prevê quem fabrica produtos potencialmente contaminantes é responsável por todo o ciclo de vida do produto, do começo ao fim. O Poder Público não pode ignorar o mercado informal de eletrônicos no país e deve criar condições, com dinheiro da indústria ou de impostos, para que sucateiros e recicladores consigam trabalhar em condiçõe seguras, sem se contaminar e não só proibir as más práticas. A sociedade deve depositar adequadamente esses produtos e pressionar o Poder Público a regulamentar leis e normas de residuos eletro-eletrônicos e, enquanto consumidores, pressionar a Indústria Eletrônica a coletar seus produtos e darem uma solução ambientalmente adequada.
Há mão-de-obra carente de conhecimento e oportunidade. Há equipamentos e componentes valiosos, com grandes possibilidades de reutilização. Há mercado para o consumo de novos e usados, de matéria-prima, de componentes. E onde está essa riqueza? Contaminando pessoas e meio-ambiente, e é essa a realidade que continuará e se agravará se não fizermos nada.
Entrei com a sensação que era um cemitério de eletrônicos. Na verdade, aquele lugar é uma central de órgãos, cheio de vida e possibilidades.
- Blog de Felipe Andueza
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- 28.10.2009
- 19:32





Comentários
lixo eletronico - o desespero de nao ter o que fazer
Retiramos e encaminhamos corretamente todo material eletrônico,C
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Pois é...