Como pagar a conta do ciclo reverso dos resíduos eletrônicos?
O 1º Seminário Estadual de Resíduos Tecnológicos, realizado em Fortaleza pelo Instituto Ideias e o Projeto CE-WASTE, rendeu boas discussões sobre o tema. A participação de representantes de indústrias de reciclagem, aterros sanitários, diversos representantes do poder público de todas as esferas, profissionais da área, projetos de inclusão digital e metareciclagem enriqueceu com diferentes pontos de vista a questão: Como pagar a conta do ciclo reverso dos resíduos eletrônicos?
Na verdade a maioria dos participantes do evento questionou em outros termos: quem paga a conta? Encontro aí uma falha de abordagem na procura pela sustentabilidade (inclusive econômica) do ciclo reverso. Por exemplo os Programas de Gestão Ambiental numa empresa podem ser vistos como uma fonte de gastos obrigatórios por lei, e dispendiosos serão se continuar a velha resistência às causas ambientais, baseada no discurso: isso sai muito caro. Entretanto um Sistema de Gestão Ambiental bem desenhado significa redução de desperdícios, dimunição do risco de acidentes, multas, redução do seguro, melhora da percepção da imagem e compromentimento da empresa por seus próprios colaboradores, comunidade local, clientes, organizações da área e poder público. Isto significa, em outras palavras, redução de gastos e aumento de competitividade, simplesmente. E acredito que o mesmo possa ser feito com os resíduos eletrônicos - e as empresas que saírem à frente ganharam muito com isso.
Na Europa, em alguns lugares dos Estados Unidos e Japão a solução encontrada geralmente atribui o custo do ciclo ao produtor. Nada mais justo, já que se produziu algo, tem que dar conta de desproduzir - do berço ao túmulo, como se diz. Entretanto essa estratégia deixa de lado: a. produtos de empresas já falidas; b. produtos compostos por peças de várias empresas (ex. maioria dos desktops caseiros); c. produtos do mercador informal (sim, eles existem, poluem tanto quanto e representam boa parte do mercado brasileiro). Uma legislação que só reponsabilize os produtores pela destino dos eletrônicos não contemplaria toda essa gama de equipamentos - que continuaria um potencial contaminante.
No Seminário foi apresentado o bem-sucedido caso da logística reversa das embalagens de agrotóxicos no Brasil, agenciado por uma organização privada (INPEV) financiada pela indústria correspodente. Pode vir a ser parte de uma boa solução: a criação de uma entidade responsável pelo ciclo reverso dos equipamentos eletro-eletrônicos produzidos no país. O financiamento poderia vir da Indústria Eletro-Eletrônica e dos Estados (o que não significa que a sociedade não pagaria por isso, esses custos provavelmente seriam repassados em forma de impostos e ou nos valores finais dos produtos eletrônicos). A criação dessa entidade garantiria que mesmo eletrônicos do mercado negro, de empresas falidas e de múltiplos fabricantes fossem reutilizados, ressignificados, reciclados e depositados adequadamente.
Volto à questão: enquanto a pergunta for "quem paga?" sempre pensaremos que os custos do processo serão maiores que os ganhos. Talvez isso seja verdade hoje, mas precisa ser sempre assim? Será mesmo?
"Como pagar?" nos leva a pensar a como cortar gastos nesse processo e como conseguir recursos agregando valor a várias etapas do processo para que ele se sustente, e até lucre. Os gastos com o processo reverso dos eletrônicos são altos: logística e manufatura reversas geralmente são mais caras que os preços das matérias-primas obtidas (valores em constante mudança causados pela lei de oferta e procura do mercado). Mas, não seria possível reduzir esse alto custo e ainda obter recursos além das matéria-primas?
Fica para o próximo post: oportunidades no ciclo reverso dos eletrônicos!
- Blog de Felipe Andueza
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- 17.06.2009
- 20:14





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Resíduos eletrônicos